sábado, 12 de julho de 2008

eu, tu e o peso da história


e ele disse-lhe:
foi assim mesmo.
criaste um deserto.
e chamaste-lhe paz.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

"o passado é um país estrangeiro" L.P. Hartley


"lembras-te de mim?"
em regra lembro-me mal porque qualquer coisa em todo o meu corpo se recusa a aceitar a injustiça da vida, o exercício saudoso de épocas que deixaram de ser, a recapitulação melancólica da memória.
quantos anos tenho? dá-me ideia que poucos, acabei de nascer.
nunca perguntei a ninguém
"lembras-te de mim?"
porque sou outro sempre. lembrarem-se de quê?
nunca coleccionei nada a não ser coisas impossíveis, passei os dias a procurar maçanetas em paredes sem porta.

o segredo é partir para isto sem ideias, sem planos.
deixar vir.

---A.L.A.---

sinto-me livre.
estupidamente livre.

não me cerquem de defuntos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

a nossa língua


e ele disse:
Eu só quero que saibas que às vezes saem coisas da minha boca que em nada se assemelham a palavras.




ela sorriu.
e apagou a luz.

terça-feira, 8 de julho de 2008

a morada permanente




a retenção dos momentos.
o brilho sempre renovado.

this cancer's on remission




The laws of chance, strange as it seems,
Take us exactly where we most likely need to be.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

moi aussi, marianne.

e ele disse:
hoje voltei a ver-te.
agora só preciso de te encontrar.
há qualquer coisa na tua cara...



espero que esperes.

bejahen #1


e ela disse:
à noite a cidade mete medo de tão sem ninguém.
à noite a cidade apazigua de tão sem ninguém.
à noite a cidade sou eu de tão sem ninguém.

e ele não disse nada.

"é preciso sobretudo sugerir alguma coisa"


porque o indizível nunca é silêncio.
e o silêncio é o que destrói.

os loucos


Os loucos, não os quero ver. Não tenho nada a ver com eles. Ponham-nos num mundo à parte, para que não nos venham chatear, com médicos se quiserem mas só para eles, um mundo fechado, bem murado, bem hermético, um outro mundo – que a gente os possa esquecer. É exactamente o que pretende fazer o asilo, é a esse desejo que ele responde: constituir um outro mundo estanque aonde a loucura fique isolada. No exterior, no mundo normal, apenas a razão, apenas o bom senso – no asilo, nada de sensato. O asilo purga, decanta, purifica, recolhe entre os seus muros toda a loucura do mundo. As grades do asilo separam, demarcam: lá fora o normal, no interior o patológico. Hoje já se suspeita que uma distinção tão marcada deve ter por vezes alguma coisa de abusivo, que nem tudo é assim tão certo nas pessoas “do exterior”, e que os que estão “dentro” talvez nem sempre sejam completamente malucos, que talvez haja, como dizem os americanos, que não se preocupam tanto com os conceitos, “partes sãs na sua personalidade”. É provável que essa dúvida sempre tenha existido, mas o homem tem necessidade de certezas, sentimo-nos melhor quando as coisas são nítidas. Por isso o sistema asilar não regateou despesas, e a psiquiatria entregou-se entusiasmada à tarefa de fabricar sintomas e de provar que se um tipo está internado é porque realmente não regula bem.

sábado, 5 de julho de 2008

terça-feira, 1 de julho de 2008

to the girl that cries for no reason (last warning)


embrace me,
i'm your long lost,


don't waste me,

'cause i wont last long
(and i wont comeback)




i'm your here i am.

walk up to the snake.

get bit.
die.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

the path of least resistance (gone fishing)




espera, o erro foi meu. expliquei-me mal.
quando eu digo "nós", o que quero dizer é "eu dentro de ti". mais nada.

"i told you. you know nothing about wickedness..."















e depois ela ainda disse:
tu compreendes isso?
habitualmente compreendes tudo.
menos as coisas mais simples.


e ele ouviu tudo até ao fim.
e compreendeu.
pegou no casaco sem dizer nada.
e foi-se embora.

não foi a última vez que se viram.

o sentido contrário



( o Boavida, uma vez, comeu três cocos. E não morreu porque eu estava ao pé dele. A partir daí, nada mais fiz, na minha existência, que mereça citação.





Nem ele, provavelmente.)

to sheila (1998-2008)


Twilight fades Through blistered Avalon
The sky's cruel torch On aching autobahn
Into the uncertain divine
We scream into the last divine
You make me real
Strong as I feel
You make me real
Sheila rides On crashing nightengale
Intake eyes Leave passing vapor trails
With blushing brilliance alive
Because it's time to arrive
You make me real
Strong as I feel
You make me
Lately, I just can't seem to believe
Discard my friends to change the scenery
It meant the world to hold a bruising faith
But now it's just a matter of grace
A summer storm Graces all of me
Highway warm Sing silent poetry
And I could bring you the light
And take you home into the night


Um beijo, amor.
E até já.

terça-feira, 24 de junho de 2008

das pequenas coisas secundárias

dedicado a H.


as catástrofes diárias
a contagem das vítimas
o polícia de bigode
o cão do vizinho
as frieiras das crianças
os actos súbitos
os hálitos
os invólucros meio abertos
as videiras
os figos amarelos e azulados
as vespas
as insígnias da presença
as mãos cheias
a roupa escura da cama
as ruínas das igrejas bizantinas
o fedor
os pedaços de pele
os mitos
a comparação
o direito de estar vivo
o desejo de morrer
as hélices
a ausência
os recantos
o tique-taque malígno
as designações originais
o brilho renovado
o prodígio
a retenção dos momentos
o voltar para casa
o simplesmente voltar para casa
o jardim
o regresso
o cinzento
o abandonar
as pêras grandes
o chão
o êxtase
a duração
o dizer
a morada permanente
os hábitos
a prática
os passos
a mesa de café
o comer
o ócio
o lazer
a aventura
a antipatia
as regras
os serviços
os parágrafos
o parágrafo
o esforço
os jogos
os urinóis
a forma
a vibração
a neve
o impulso
as feridas
a ferida
as palavras
a ladainha
os pardais
a sintonia
os crentes
os dias
o paciente
os fieis
o propósito
a atenção
os cabelos
as pontas dos cabelos
a presença
o afecto
os seres vivos
os grandes vultos
o sobre-humano
a alunagem
as descobertas
os pontos
o comum
a origem
o centro do mundo
o lugar que se ocupa
o insignificante
o não valer a pena falar
o registo
as marcas
a face rígida
os peitos vazios
o imperioso
o exercício
o caro
a extinção
o arrepio
as portas
as portas fechadas
a maçã
a linha de coser
os números
o primeiro
o antes
o termo
os lados
as ancas
a respiração na respiração
a cor vermelha
os loucos
as tuas cicatrizes
o impossível de encontrar
os firmes
o sussurro
a melopeia
o único
a noite
o som
os olhos claros
os dentes
a pele bem esticada dos lábios
o desenho
o macio
o queixo sempre liso
os dedos
o nunca lá estar
os corpos
o fazer doer
a parede do quarto
a luz da lanterna
as sombras
o trato
as pequenas coisas secundárias
o régio
os circunspectos
o cabide
o capuz azul
o "tamanho infantil"
a outra cidade
o casaco de camurça
o avassalar
os escritórios
o elemento
os ruídos
o sinal do regresso
o mergulho
o descendente
as filas de estranhos
a visão
o verbo especial
a culpa
o agravo
a indulgência
os defeitos
os desmandos
os punhos no peito
o triunfo
o lugar certo
a selva da casa
os efeitos
a colher
as toalhas
a cadeira de verga
as caves
os expatriados
os mapas sem nomes
o não saber
os postais ilustrados com nenúfares
o traçado da auto-estrada
os avós
a erva
os restos enferrujados
os dialectos
o custo
o leite
as manchas de bolor
a medula
as foices
a madrugada
a saída
as doenças
a despedida
as fendas
as pernas brancas
o verme
a fronteira
o saber
os recolhidos
a amplitude
o escoar
a espessura
o sentido contrário
as margens
a nuvem
o indício
as praças
a peregrinação laica
o intervalo
as cores dos semáforos
o estremecimento
o asfalto
os vinte anos
os anos vinte
os pés
o erro
a arma
os sulcos
o triângulo de relva
a cor do barro
os subúrbios
os próximos
o cismar habitual
o lugar do falatório
o explícito
as vozes
o chegar
o ranger
os restaurantes fechados
os muros
o desejar por certo
os peregrinos
as romarias
o exuberante
a bagagem
as estações
o roscar uma lâmpada
as pedras
o executar
os tumultos
as idades
o dispêndio
as corridas de resistência
as têmporas
as teias de aranha
o recuar da cadeira
o relance dos olhos
a impressão dos gatos
o espaço descritível
as descrições que se seguem
o desprendimento
a carga impressionante
a graça
os timbres mais adequados
o compasso
os ingredientes
o brando
o antiquíssimo
o que falta
o transitório
as lágrimas
os reunidos
os articulados

a prece.