quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

fazer de tudo, tudo.


ele disse:
o direito.

e ela disse:
o meu lado preferido da cama és tu.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

às vezes o tempo certo não é o tempo pré-determinado



aqui é onde vivo e é quasi primavera. vê-se.


antigamente, isto é, antes, as coisas deste lugar, as pedras, as plantas, os sons, tomavam-me como se de passagem.

agora vivo aqui. perceberam que vivo aqui. viver num lugar obriga a acertas atitudes conjugadas com esse lugar. tenho que estar atenta.

há aqui uma velha glicínia que se finje morta.
dos velhos troncos da glicínia espreitam-me uma infinidade de olhos e eu tenho que estar atenta. eu sei que subitamente, julgando-me desprevenida, ela vai estalar. de riso para me perturbar. pela manhã estará cheia de flores abertas, feliz por me ter enganado fingindo-se morta.
porque nunca vivi aqui antes e ela floriu para outros cada ano e eu não sei os seus costumes, nem sei como os outros para quem ela floriu antes aceitavam o seu jogo de florir e se ela se fingiu morta cada ano para eles como este ano se fingiu morta para mim, não sei se deva mostrar-lhe espanto.


é uma velha glicínia...
os velhos (que idade tenho hoje?), os velhos gostam que se mostre espanto pelas coisas que fazem e pelas coisas que fizeram, como se as fizessem ou tivessem feito de uma forma única, pessoal, descoberta por si próprios ao longo do esforço do seu esforço de viver.
é uma velha glicínia. devo, portanto, mostrar-lhe espanto pela sua renovada novidade de florir.

que idade é preciso ter para saber coisas como estas pequenas coisas, tais como perceber o que as criaturas não querem que se perceba abertamente, mas sim de uma maneira adivinhada e não dita?


afinal sou muito mais velha do que a velha glicínia. porque os velhos são sábios. além de pueris.

quando lhe mostrar espanto por vê-la florida serei tão velha como se sua mãe.
mas o gosto de a ver florida far-me-á tão nova como cada uma das suas flores novas.

ontem floriu neste lugar a grande amendoeira. que idade tinha eu ontem (ou no mês passado), quando floriu a grande amendoeira de flores brancas? floriu para mim, suponho. gostei muito. encostei-me ao seu tronco e olhei para cima. ela arredondou-se como uma grande esfera, como uma cúpula de flores brancas e riu-se de gozo.

pensei nas coisas deslumbrantes que me dão. pensei no que me tens dado. depois disso floriu a amendoeira das flores cor de rosa. mas essas, as flores cor de rosa, correram por aqui e por ali por entre as ramadas das oliveiras para me fazer rir, para que eu as procurasse uma a uma por entre as ramadas das oliveiras.
eram flores para os olhos e para o riso, enquanto as outras, as flores brancas da grande amendoeira, eram flores tranquilas para o conjunto de ver, de respirar, de amar as coisas em volta, mesmo as coisas que não tinham que ver com a grande amendoeira e a sua cúpula de flores brancas.


que idade tive nesses dias?
menos talvez do que amanhã ou talvez incrivelmente mais.
que idade terei amanhã?

que idade tenho quando te vejo do meu lado esquerdo?
isso não tem que ver com a idade que terei amanhã. nem com a idade que tive ontem.
mas tem seguramente que ver com a idade que tenho hoje. com a minha idade de todos os dias que são exactamente os dias de hoje.
chamo dias de hoje aos dias que decorrem dentro de uma grande lucidez.
forçosamente, coloquei-te dentro dos dias extremamente lúcidos.
hoje.

olhando-te vejo-te imóvel na tua idade inalterável. vejo o teu lado direito. nunca me será dado ver o teu lado esquerdo. porque, mesmo que abrisses para mim as tuas janelas, eu só poderia ver nelas, olhando-as, o teu rosto.
um rosto é uma peça hermética.
é de difícil acesso, o nosso lado esquerdo.

tu pertences aos dias extremamente lúcidos e agora estou falando apenas nos dias das minhas idades mutáveis e incertas e deste lugar que vivo agora onde me permito sair do tempo às vezes.

e nada me impede de fazer anos amanhã. ou depois de amanhã.

vou festejá-los como é costume, em superfície e no primeiro plano.




in
"árvores de domingo"
de maria keil

(um obrigado à joana)



quarta-feira, 22 de julho de 2009

sexta-feira, 26 de junho de 2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

eu queria ser ninguém



não tens de olhar sem gosto
nem de gostar sem ver.

ninguém é quem queria ser.


terça-feira, 23 de junho de 2009

segunda-feira, 11 de maio de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

doris day could never make me cheer up quite the way those french girls always could



jean seberg: et puisque je suis mechante avec toi c'est la preuve que je ne
suis pas amoureuse de toi.
jean paul belmondo: on dit qu'il n'y a pas d'amour heureux.
jean seberg: si je t'aimais... oh c'est trop complicé...
jean paul belmondo: au contraire, il n'y a pas d'amour malheureux.
jean seberg: je veux que les gens s'occupant pas de moi et puis je suis
independente. peut etre que tu m'aimes?
jean paul belmondo: c'est ce que lu crois, mais tu ne l'ai pas.
jean seberg: c'est pour ca que je t'ai denonce.
jean paul belmondo: je te suis superieur.
jean seberg: maintenant tu es force de partir.
jean paul belmondo: tu es single, c'est lamentable comme raisonnment
.

in
"à bout de souffle"
de jean-luc godard


quinta-feira, 16 de abril de 2009

i say potato



- não deixamos nada por fazer.
- ainda nos falta fazer tudo.
- you say potato...


sábado, 4 de abril de 2009

as histórias quando se percebem é porque foram mal contadas

o mendigo: sou louco.
baal: saúde. já nos conhecemos. eu sou saudável.
o mendigo: eu conheci um homem que também dizia que era saudável. dizia. tinha vindo de uma floresta e uma vez voltou lá porque precisava de reflectir um pouco. achou a floresta completamente estranha e sentiu-se como se não tivesse vindo de lá. andou muitos dias, muitos dias sempre solitário porque queria ver até que ponto seria capaz de aguentar. mas já não era muito.
baal: que vento!
o mendigo: sim, o vento. numa noite, quase ao amanhecer, quando ele já não se sentia tão sozinho, foi andando através do enorme silêncio pelas árvores, e foi-se pôr debaixo de uma delas, que era muito grande.
bolleboll: foi o macaco que havia dentro dele.
o mendigo: sim, talvez o macaco. encostou-se a ela, muito junto, sentiu a vida em si, ou julgou senti-la, e disse: tu és mais alta do que eu e estás bem presa e conheces a terra bem até ao fundo e ela segura-te. eu posso correr e mexo-me melhor, mas não estou preso a nada e não posso descer até ao fundo. nada me segura.
gougou: o que disse a árvore?
o mendigo: o vento soprava. pela árvore correu uma tremura que o homem sentiu. então atirou-se para o chão, abraçou as raízes duras e selvagens e chorou amargamente. mas fez isto com muitas árvores.
ekart: e curou-se?
o mendigo: não. mas morreu mais aliviado.
maja: não percebo isso.
o mendigo: não percebemos nada. mas sentimos muitas coisas.


in baal
de bertolt brecht