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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

sexta-feira, 22 de abril de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

os dedos


deixou-me o corpo cheio
de dedadas
pouso os dedos nas dedadas que deixou
venho-me agora senhor

Bénédicte Houart


quarta-feira, 9 de março de 2011

isto tudo


Tudo isto já beijou a dúvida na boca. Tudo isto já fingiu ter tempo para regressar. Tudo isto já supôs que agora seria diferente. Tudo isto já se empenhou em derrotar seis ou sete pessoas. Tudo isto já foi roupa a secar e a proximidade da noite. Tudo isto já encantou o estrangeiro. Tudo isto já se sentou à espera de ver. Tudo isto já rasgou o que não interessava e o que demais interessava. Tudo isto já despiu a vergonha. Tudo isto já foi de avião à sua lucidez futura. Tudo isto já enfrentou o desespero com duas moedas apenas. Tudo isto já se cansou de buscar modos de dizer. Tudo isto já foi mercúrio. Tudo isto já caiu a meio da noite sem que ninguém lhe tocasse. Tudo isto já deu o nome errado. Tudo isto já pediu para trocar tabaco. Tudo isto já se intrometeu. Tudo isto já foi demais para caber num corpo. Tudo isto já mordeu os lábios por lhe sobrar o desejo. Tudo isto já comentou as notícias terríveis a mais de cinco metros de distância. Tudo isto já presenciou a morte e o nascimento. Tudo isto já permitiu que entrasse. Tudo isto já sentiu os nervos como cordas. Tudo isto já deixou alguém adormecer. Tudo isto já inalou o ópio suave do reencontro.Tudo isto já percebeu que pode acontecer.


Vasco Gato

terça-feira, 7 de setembro de 2010

notas para konstantin #2



"sou feio, desajeitado, pouco asseado e sem verniz mundano.
sou irritadiço, desagradável para os outros, pretensioso, intolerante e tímido como uma criança. sou ignorante. o que sei, aprendi-o aqui e acolá, sem seguimento e, mesmo assim, tão pouco.

sou indisciplinado, indeciso, inconstante, estupidamente vaidoso e violento como todos os homens sem carácter.
sou honesto, o que significa que gosto do bem: ganhei o hábito de o estimar e, quando me afasto dele, fico descontente comigo, e volto ao bem com prazer.
mas há uma coisa que prezo mais que o bem: é a glória.
sou tão ambicioso que, se tivesse de escolher entre a glória e a virtude, acho que escolheria a primeira."


Lev Tolstói, diários

terça-feira, 13 de julho de 2010

notas para konstantin #1

"you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little
friction or
distress.
they dress well, eat
well, sleep well.
they are contented with
their family
life.
they have moments of
grief
but all in all
they are undisturbed
and often feel
very good.
and when they die
it is an easy
death, usually in their
sleep.

you may not believe
it
but such people do
exist.

but i am not one of
them.
oh no, I am not one of them,
I am not even near
to being
one of
them.

but they
are there

and I am
here."

C. Bukowski

quinta-feira, 11 de março de 2010

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

fazer de tudo, tudo.


ele disse:
o direito.

e ela disse:
o meu lado preferido da cama és tu.


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

às vezes o tempo certo não é o tempo pré-determinado



aqui é onde vivo e é quasi primavera. vê-se.


antigamente, isto é, antes, as coisas deste lugar, as pedras, as plantas, os sons, tomavam-me como se de passagem.

agora vivo aqui. perceberam que vivo aqui. viver num lugar obriga a acertas atitudes conjugadas com esse lugar. tenho que estar atenta.

há aqui uma velha glicínia que se finje morta.
dos velhos troncos da glicínia espreitam-me uma infinidade de olhos e eu tenho que estar atenta. eu sei que subitamente, julgando-me desprevenida, ela vai estalar. de riso para me perturbar. pela manhã estará cheia de flores abertas, feliz por me ter enganado fingindo-se morta.
porque nunca vivi aqui antes e ela floriu para outros cada ano e eu não sei os seus costumes, nem sei como os outros para quem ela floriu antes aceitavam o seu jogo de florir e se ela se fingiu morta cada ano para eles como este ano se fingiu morta para mim, não sei se deva mostrar-lhe espanto.


é uma velha glicínia...
os velhos (que idade tenho hoje?), os velhos gostam que se mostre espanto pelas coisas que fazem e pelas coisas que fizeram, como se as fizessem ou tivessem feito de uma forma única, pessoal, descoberta por si próprios ao longo do esforço do seu esforço de viver.
é uma velha glicínia. devo, portanto, mostrar-lhe espanto pela sua renovada novidade de florir.

que idade é preciso ter para saber coisas como estas pequenas coisas, tais como perceber o que as criaturas não querem que se perceba abertamente, mas sim de uma maneira adivinhada e não dita?


afinal sou muito mais velha do que a velha glicínia. porque os velhos são sábios. além de pueris.

quando lhe mostrar espanto por vê-la florida serei tão velha como se sua mãe.
mas o gosto de a ver florida far-me-á tão nova como cada uma das suas flores novas.

ontem floriu neste lugar a grande amendoeira. que idade tinha eu ontem (ou no mês passado), quando floriu a grande amendoeira de flores brancas? floriu para mim, suponho. gostei muito. encostei-me ao seu tronco e olhei para cima. ela arredondou-se como uma grande esfera, como uma cúpula de flores brancas e riu-se de gozo.

pensei nas coisas deslumbrantes que me dão. pensei no que me tens dado. depois disso floriu a amendoeira das flores cor de rosa. mas essas, as flores cor de rosa, correram por aqui e por ali por entre as ramadas das oliveiras para me fazer rir, para que eu as procurasse uma a uma por entre as ramadas das oliveiras.
eram flores para os olhos e para o riso, enquanto as outras, as flores brancas da grande amendoeira, eram flores tranquilas para o conjunto de ver, de respirar, de amar as coisas em volta, mesmo as coisas que não tinham que ver com a grande amendoeira e a sua cúpula de flores brancas.


que idade tive nesses dias?
menos talvez do que amanhã ou talvez incrivelmente mais.
que idade terei amanhã?

que idade tenho quando te vejo do meu lado esquerdo?
isso não tem que ver com a idade que terei amanhã. nem com a idade que tive ontem.
mas tem seguramente que ver com a idade que tenho hoje. com a minha idade de todos os dias que são exactamente os dias de hoje.
chamo dias de hoje aos dias que decorrem dentro de uma grande lucidez.
forçosamente, coloquei-te dentro dos dias extremamente lúcidos.
hoje.

olhando-te vejo-te imóvel na tua idade inalterável. vejo o teu lado direito. nunca me será dado ver o teu lado esquerdo. porque, mesmo que abrisses para mim as tuas janelas, eu só poderia ver nelas, olhando-as, o teu rosto.
um rosto é uma peça hermética.
é de difícil acesso, o nosso lado esquerdo.

tu pertences aos dias extremamente lúcidos e agora estou falando apenas nos dias das minhas idades mutáveis e incertas e deste lugar que vivo agora onde me permito sair do tempo às vezes.

e nada me impede de fazer anos amanhã. ou depois de amanhã.

vou festejá-los como é costume, em superfície e no primeiro plano.




in
"árvores de domingo"
de maria keil

(um obrigado à joana)



quinta-feira, 23 de abril de 2009

doris day could never make me cheer up quite the way those french girls always could



jean seberg: et puisque je suis mechante avec toi c'est la preuve que je ne
suis pas amoureuse de toi.
jean paul belmondo: on dit qu'il n'y a pas d'amour heureux.
jean seberg: si je t'aimais... oh c'est trop complicé...
jean paul belmondo: au contraire, il n'y a pas d'amour malheureux.
jean seberg: je veux que les gens s'occupant pas de moi et puis je suis
independente. peut etre que tu m'aimes?
jean paul belmondo: c'est ce que lu crois, mais tu ne l'ai pas.
jean seberg: c'est pour ca que je t'ai denonce.
jean paul belmondo: je te suis superieur.
jean seberg: maintenant tu es force de partir.
jean paul belmondo: tu es single, c'est lamentable comme raisonnment
.

in
"à bout de souffle"
de jean-luc godard


quinta-feira, 16 de abril de 2009

i say potato



- não deixamos nada por fazer.
- ainda nos falta fazer tudo.
- you say potato...


terça-feira, 31 de março de 2009

estática #7

– Pouco me importa.
– Pouco te importa o quê?
– Não sei. Pouco me importa.

quinta-feira, 26 de março de 2009

o amor dá-me tesão (tu és muito mais do que aquilo que eu te empresto)


ele falava muito pouco. ela queixava-se muito que ele falava muito pouco. ele escrevia muito e mesmo assim achava que havia coisas extraordinárias para as quais as palavras não chegavam. ela gostava de palavras. não obrigatoriamente de as ler, mas de saber que elas estavam lá à espera de ser lidas. por si e pelos outros. por si. sobretudo por si. como se fossem suas por direito. nessa noite ele acordou porque o calor o fez acordar, não por ter algo para dizer. tinha isso muito claro para si. e como não a queria acordar também, escreveu.

deixou este recado em cima da mesa da cozinha (entalado entre a mesa e um copo de vidro escuro por onde ela bebia sempre antes de ir para a cama) e saiu de casa sem fazer barulho:


quero repetir-te mil vezes o que já sabes
que te quero
que te amo com o corpo todo
quero dizer-te
que tu és mais do que aquilo que eu te empresto (e eu nunca soube o que isso é).
quero dizer-te
que gosto muito de discordar de ti
quero dizer-te
que o que vale a pena nasce da tua boca.
quero beijar-te até a língua ficar cansada (a minha e a tua)
quero beijar-te depois da língua se cansar
quero morder-te o lábio com força e vê-lo sangrar (de tão real que és...)
quero que saibas
tu és muito mais do que aquilo que eu te empresto (e quão fantástico é isso?)
és o meu almoço
és os nossos banhos
és os teus medos e os meus
és a minha desculpa para deixar de sentir culpa
quero dizer-te
que gosto do teu corpo e do teu cheiro
gosto daquilo a que sabes
que faço de olhos abertos aquilo que podia fazer de olhos fechados
quero dizer-te que estar contigo é bom
é muito bom (onde estão os adjectivos?)
é um filme de domingo à tarde e pornografia barata
é aquelas merdas todas que me disseram que era suposto ser e mais qualquer coisa que não sei (não sei, não. não quero, não me apetece) identificar
quero dizer-te
tu és a resposta esfregada na cara dos filhos da puta que me disseram que a vida não podia ser cinema.
(e eu que quase acreditei nesses cabrões...)
quero que saibas
que contigo, supero-me
venço-me e derroto-me todos os dias (e não há nada de luta nisto)
quero dizer-te
que quero fazer as vezes de todos os que vieram antes e dos que hão de vir depois
quero ser o que vem depois de mim
quero fazer-me essa gente toda.
quero dizer-te
eu não te empresto nada. tu és. o que te ofereço é porque quero.
eu não te empresto nada.
tu já eras o mundo inteiro antes de mim.
foda-se,
foda-se,
é mesmo verdade.
de tudo aquilo que descobri de mim, tudo aquilo que descobri que sou, que quero, que está errado no que sinto como certo,
descobri que
não preciso de estar triste, carente, de estar no limbo, alterado, cheio de químicos, de fazer-me outro, de discussão, de música aos berros, de subterfúgios manhosos, não preciso dessa tensão...
porque na verdade...




o amor dá-me tesão.




domingo, 22 de março de 2009

estática #6

– ...e em casa tenho 2 pratos, 2 copos, 2 facas, 2 garfos e 2 colheres.
– Sim.
– O segredo é ter sempre 2 de tudo para nunca sentir falta de nada.

terça-feira, 17 de março de 2009

estática #5

– e tu?
– a vida agora corre sem perigos. sozinhos achámo-nos mais capazes. e estar triste… estar triste sem testemunhas não serve para nada.
– mas e tu?
– hoje sim, estou contente. amanhã logo vejo.
– sim, e tu?
– se quisermos ser justos é ainda mais difícil porque não somos.
– não. e tu?
– podemos ser mais que suficientes para várias pessoas, mas nunca chegamos para uma só. nunca.
– mas e tu?
– é imperativo mudar de supermercado.
– e tu?
– mas isso não importa, pois não? o que importa é o que há-de vir e essas coisas todas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

estática #4

- Ouve, ouve, hoje descobri uma coisa.
– O quê?
– Quando não olhas para as pessoas, elas deixam de existir.

sábado, 7 de março de 2009

estática #3

– Mas e depois?
– Depois nada.
– Como assim, nada?
– Ele precisava de dizer coisas. E ela de esquecer o que ele dizia.

quinta-feira, 5 de março de 2009

estática #2 (ela)

- não devia, não devia ter-te deixado entrar assim na minha vida. mas deixei. quando me telefonaste da primeira vez eu disse-te que sim como podia ter dito que não.
o tédio tem dessas coisas...
como tu já conheci muitos. tinhas um brilho qualquer, estavas cheio de ti, bebias demais... (isso eu só percebi depois....)
quando aquele primeiro jantar acabou, juro-te que senti alívio. e achei ridícula a tua insistência, mas deixei-te vir. estava um calor insuportável. eu chorava. não, não, eu queria chorar. mas tu não quiseste saber porquê. agarraste-me nos braços. não era em ti que eu pensava quando me distraía...
sim, os primeiros tempos foram bons. tudo tinha uma importância irreal. tu dizias muitas vezes que o nosso encontro tinha de ser breve para se manter belo. e tinhas razão.
começaste a ir e a voltar dois dias depois. depois três. depois mais. e eu, sem saber, agradecia. a vontade de estar foi diminuindo. quando não sabia o que dizer, e eram muitas as vezes, inventava. e quando a novidade deixou de o ser, o que sobrou era muito pouco. quase nada.
eu adio tudo tanto quanto posso. arrumar a casa, lavar a roupa, o trabalho, ir buscar aquele livro que tenho encomendado há semanas,… mas adiar a vida… e eu sei que estou a adiá-la. eu sei disso. (não sei não sei não sei nada) conheço cada vez mais gente. (eu acho que não conheço ninguém) e não sei o que faço, nem porque o ando a fazer, nem onde estou. (o que é que eu estou a fazer aqui?) mas continuo. quero andar para a frente. (eu tenho de parar) há coisas que se fazem que se desfazem. outras que não. amanhã volta tudo ao mesmo (fugir a tudo para trazer tudo de volta). tu ainda estás a dormir. eu vou deixar.
espero que oiças isto.

estática #2 (ele)

- não devia ter-te deixado entrar assim na minha vida. mas deixei. quando me telefonaste, daquela vez, disse-te que sim como podia ter dito que não.
o desejo tem dessas coisas...
como tu já conheci muitas. estavas cheia de vida, de vontades, fumavas imenso...
quando aquele primeiro jantar acabou, juro-te que o que senti foi um alívio inexplicável. achei um bocado patética a tua insistência mas deixei-te vir. chovia imenso. eu estava tão cansado... tu nem me deixaste tirar o casaco. agarraste-me nos braços. não era o teu nome que eu sussurrava entredentes...
sim, os primeiros tempos foram bons. tu estavas sempre a dizer que o nosso encontro tinha que ser breve para se manter belo. e tinhas razão.
começaste a ir e a voltar dois dias depois. depois três. depois mais. (menos telefonemas) eu agradecia. porque a vontade foi diminuindo. e eu não sabia o que te dizer a maior parte do tempo... e quando a novidade deixou de o ser, o que sobrou era muito pouco. quase nada.
eu adio tudo. arrumar a casa, lavar a roupa, devolver chamadas que considero importantes… mas sobretudo adio a vida. (a vida é uma coisa que não se deseja a ninguém) sim, sim, eu sei disso. (não sei não sei não sei nada) conheço cada vez mais gente. não sei o que faço, nem porque o faço. mas continuo. quero andar para a frente. (tenho de parar) há coisas que se dizem que se desdizem. outras que não. amanhã volta tudo ao mesmo. (fugir ao tédio para trazer o tédio de volta) tu ainda dormes. eu vou deixar.
espero que oiças isto. desculpa.