sábado, 4 de abril de 2009

as histórias quando se percebem é porque foram mal contadas

o mendigo: sou louco.
baal: saúde. já nos conhecemos. eu sou saudável.
o mendigo: eu conheci um homem que também dizia que era saudável. dizia. tinha vindo de uma floresta e uma vez voltou lá porque precisava de reflectir um pouco. achou a floresta completamente estranha e sentiu-se como se não tivesse vindo de lá. andou muitos dias, muitos dias sempre solitário porque queria ver até que ponto seria capaz de aguentar. mas já não era muito.
baal: que vento!
o mendigo: sim, o vento. numa noite, quase ao amanhecer, quando ele já não se sentia tão sozinho, foi andando através do enorme silêncio pelas árvores, e foi-se pôr debaixo de uma delas, que era muito grande.
bolleboll: foi o macaco que havia dentro dele.
o mendigo: sim, talvez o macaco. encostou-se a ela, muito junto, sentiu a vida em si, ou julgou senti-la, e disse: tu és mais alta do que eu e estás bem presa e conheces a terra bem até ao fundo e ela segura-te. eu posso correr e mexo-me melhor, mas não estou preso a nada e não posso descer até ao fundo. nada me segura.
gougou: o que disse a árvore?
o mendigo: o vento soprava. pela árvore correu uma tremura que o homem sentiu. então atirou-se para o chão, abraçou as raízes duras e selvagens e chorou amargamente. mas fez isto com muitas árvores.
ekart: e curou-se?
o mendigo: não. mas morreu mais aliviado.
maja: não percebo isso.
o mendigo: não percebemos nada. mas sentimos muitas coisas.


in baal
de bertolt brecht

3 comentários:

S' disse...

AMEI a última frase!^^

Cathy Oh disse...

A última frase é uma grande verdade absoluta.
:)*

Manel disse...

...


pois.


[gosto de estarmos assim em yin-yang, às voltas com a mesma moeda.]